Feminismo e formigas: a força da cooperação feminina e lições de Sobrevivência
- Isabela Borges
- há 5 dias
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Quando pensamos no movimento feminista, que brota da necessidade de sobrevivência das mulheres, podemos imaginar que cada mulher que defende a própria vida, que estuda e fala sobre suas experiências, está fazendo um caminho solitário e autônomo, enfrentando grandes perigos ao se expor ao seu principal predador: os homens que performam a cultura machista.

Essa imagem me remeteu ao trabalho de formiguinha dessas mulheres.
Porém, quando essas experiências e forças vão se somando, essas formiguinhas erguem um grande movimento. E isso me fez pensar, literalmente, nas formigas, em seus formigueiros e modo de vida. Lembrei-me então que elas estão na Terra há milhões de anos: 113 milhões de anos, para ser mais precisa. Elas coexistiram com os dinossauros! Então, vamos conhecer um pouco mais sobre elas?
As formigas possuem características que, em conjunto, as tornam uma das criaturas mais bem-sucedidas do planeta.
Força Física Excepcional
A característica individual mais famosa é, sem dúvida, a força. Uma formiga comum pode levantar entre 10 a 50 vezes o seu próprio peso corporal, e algumas espécies de campo podem suportar até 5.000 vezes sua massa.
Assim também são as mulheres que se sobrecarregam com as tarefas domésticas e profissionais. Que, além da necessidade de ter autonomia financeira, são as maiores responsáveis na manutenção da casa e criação dos filhos, ainda que seus companheiros estejam presentes dentro de casa. A mulher aprende a acumular responsabilidades, tarefas, administrações e ainda corresponder às expectativas em todas as relações à sua volta.
Organização Social e Cooperação
As formigas são insetos sociais (formam um superorganismo) e trabalham em harmonia, com uma divisão de tarefas notável. Elas vivem em colônias que podem abrigar milhões de indivíduos, organizados em castas: rainhas, machos e operárias. As operárias desempenham funções específicas garantindo a sobrevivência do grupo.
A coordenação em massa é possível graças a um sistema de comunicação química sofisticado. Elas usam feromônios, substâncias químicas que deixam rastros para guiar outras formigas até fontes de alimento ou alertar sobre perigos. Além dos feromônios, elas podem se comunicar por contato físico (antenas) e até mesmo produzir sons por estridulação (fricção de partes do corpo) para transmitir informações.
Na analogia posta aqui, quando as mulheres se unem em redes de apoio, grandes transformações sociais acontecem.
Papel Ecológico Crucial
No ecossistema, as formigas desempenham funções vitais. Elas podem ser consideradas engenheiras do solo, pois movimentam matéria orgânica e aeram a terra, melhorando sua qualidade e fertilidade. Ajudam a controlar a população de outros insetos, mantendo o equilíbrio ecológico, e algumas espécies também dispersam sementes e realizam a polinização.
As mulheres têm muito mais facilidade com o cuidado entre as pessoas. Moradia alimentação saúde e bem-estar são coisas muito facilmente observadas pelas mulheres que colaboram para que o seu grupo tenha acesso e facilidade a esses requisitos básicos do bem viver.
O que precisamos aprender urgentemente com as formigas?
Nós, mulheres, precisamos nos conectar umas com as outras. Sempre! É hora de nós ligarmos nossas antenas e conectarmos, reconhecermos que estamos todas juntas, num mesmo barco e portanto, não estamos sós.
Uma das primeiras atitudes dos homens abusadores é isolar a mulher do contato com suas amigas, pois, para o padrão do abuso, as amigas sempre serão "más companhias". A mulher que se casa com um homem machista é levada a acreditar que suas amigas agora são rivais, não são mais confiáveis e se tornam uma ameaça à felicidade do casamento, por serem a lembrança viva da liberdade e autonomia que essa mulher já teve um dia. A mulher casada, então, deve se dedicar 100% ao marido e à família, sem tempo para si e esse isolamento tira qualquer parâmetro do que é saudável ou coercitivo em um relacionamento.
E quando a mulher consegue finalmente sair de um relacionamento abusivo, é fundamental que busque o apoio de outras mulheres que também passaram por isso, para entender que ela não precisa se silenciar. Essa é a grande força do movimento feminista: lembrar que a mulher não está sozinha e que pode compreender sua própria história por outros pontos de vista.
Esta é a principal característica que podemos aprender com as formigas: a organização social e a cooperação. E quando isso acontece, descobrimos que somos muitas, que somos muito fortes e que se não despertasrmos, passamos a vida inteira carregando pesos muito maiores do que realmente damos conta – e que, por isso mesmo, muitas vezes deixamos de viver a vida para apenas sobreviver.
A Invisibilidade da Força Feminina
Nós, mulheres, somos criadas numa sociedade que estruturalmente nos ensina a calar, a invalidar o que pensamos e sentimos. Para provar nosso valor, frequentemente precisamos nos esforçar muito mais do que um homem necessitaria. A palavra do homem é naturalmente melhor aceita e ouvida por todos na sociedade, inclusive pelas próprias mulheres. Isso acontece porque fomos ensinadas que nossa própria voz não tem tanto valor e também aprendemos a não valorizar a voz de outras mulheres.
Se não temos validação na nossa expressão, como reconheceremos nossa própria força? Eis mais um motivo para nos unirmos enquanto mulheres. Precisamos aprender a falar e a ouvir outras mulheres, e o movimento feminista tem muito a nos ensinar sobre isso.
Aqui, não se trata de ignorar os homens ou ir contra eles, mas de mergulhar para dentro de si, se reconhecer e reconhecer outras mulheres, suas forças e sabedorias. Assim, reconhecemos melhor nosso próprio lugar no mundo e, apropriando-nos desse lugar, podemos olhar para os homens com mais equidade, equilíbrio e discernimento.
Quando uma mulher reconhece seu valor genuíno, ela passa a reconhecer também o das outras mulheres ao seu redor e das que encontra pelo caminho. Ela passa a se posicionar diante da sociedade com um novo entendimento e começa a alterar a estrutura que a havia confinado a um lugar marginalizado, orbitando o poder detido pelos homens. Quando muitas mulheres começam a fazer isso, rupturas profundas começam a abalar o status quo do poder vigente. E quando muitas mulheres se encontram, se reconhecem e se unem com o objetivo de serem vistas e ouvidas, elas passam a ocupar um lugar digno, que é seu por direito. E isso pode deflagrar uma guerra, pois quem está no poder não quer abrir mão de seus privilégios e regalias.
Existe um termo, "corpos invisíveis", que expressa o apagamento, a marginalização e a invisibilidade social de certos grupos. No entanto, o poder que dita as regras sociais é, na verdade, formado por um grupo muito visível e específico: homens, brancos, cisgêneros e heterossexuais. Quem detém esses quatro pilares está no topo da hierarquia social. Qualquer outra combinação de características não terá a força plena e o lugar garantido. Portanto, quando falamos sobre movimentos feministas, estamos incomodando justamente essa esfera de poder.
Quando a Força Feminina Comanda
A longevidade das formigas no planeta talvez possa ser atribuída ao comando da força feminina. Afinal, o formigueiro é governado por sua rainha, e toda a manutenção da vida nele também é realizada pelas fêmeas.
Talvez, quando a sociedade estiver mais equilibrada e o exercício do poder entre homens e mulheres for aceito em sua importância e igualdade, poderemos dar mais espaço à empatia, à intuição, à força que existe justamente na vulnerabilidade humana, à cooperação e ao poder transformador que nasce da força da vida e da abundância. Talvez a ambição, o medo da escassez e a necessidade das guerras percam o sentido, mostrando outros valores e formas de viver.
Que venham as mudanças!


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